8.8.07

Vitória ambiental

Por CHICO GRAZIANO
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*O plástico oxibiodegradável provoca só um efeito visual, não ecológico. É
um truque químico. Seus aditivos são séria ameaça ao ambiente
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MONTANHAS DE sacolinhas perigam emporcalhar o mundo. Maleável e cômodo ao
uso humano, o plástico carrega dois graves defeitos. Deriva da cadeia
química do petróleo e tem elevada persistência na natureza. Que fazer?
Primeiro, substituir o plástico do petróleo, não degradável, pelo plástico
biológico, advindo do álcool da cana-de-açúcar ou do amido de milho.
Pesquisas avançadas indicam que o plástico biodegradável está chegando ao
mercado. Representará, no médio prazo, enorme ganho ecológico. Segundo -e
imediatamente-, reforçar a reciclagem do plástico. Isso é fundamental. Sendo
reutilizado, o carbono que compõe suas macromoléculas fica aprisionado.
Melhor assim, acumulado, que ser queimado e alimentar o aquecimento global.
Terceiro, rejeitar o uso de sacolas plásticas no comércio. Vale para
farmácia, bar, feira livre. O movimento de recusa induzirá os comerciantes a
rever sua estratégia de vendas. Aliás, a indústria da panificação acaba de
iniciar campanha para abolir o uso do plástico nas padarias, estimado no
país em 40 milhões de sacolinhas/dia. Será um alívio. No supermercado, a
equação parece ser mais difícil, mas não impossível. As empresas, se
pressionadas pela população a serem amigas da natureza, podem abolir o uso
do plástico e substituí-lo por sacolas de uso permanente. A Prefeitura de
São Paulo vai iniciar, em dias, uma campanha nesse sentido. Cidade limpa.
Vem mais por aí. Na regulamentação, em breve, da lei estadual de resíduos
sólidos, o governo estadual vai exigir a co-responsabilidade das empresas na
solução dos resíduos que elas provocam. Quem suja que ajude a limpar.
Estabelecimentos comerciais terão que implementar programas de reciclagem de
suas próprias embalagens. Os municípios precisam, também, realizar a coleta
seletiva do lixo. A substituição do plástico, a reciclagem e, finalmente, a
chegada do plástico verdadeiramente biodegradável permitem afirmar que,
talvez num prazo de cinco anos, a situação estará bem melhor. O amálgama
dessa jornada contra o uso do plástico do petróleo reside na conscientização
popular. Educação ambiental derrota fácil o marketing do plástico.
Mas, atenção. Acaba de surgir uma espécie de mágica no mundo do plástico.
Empresas européias desenvolveram um produto chamado oxibiodegradável, cuja
decomposição é acelerada no ambiente. Ilusoriamente, apelidaram essa
invenção de “plástico ecológico”. Onde está o problema? Acontece que a
degradação do plástico oxibiodegradável se baseia em aditivos químicos que
contaminam o solo e as águas. Quer dizer, ele injeta no meio ambiente, com
rapidez, as partículas tóxicas associadas aos derivados do petróleo.
Some-se, ainda, a essa contaminação as tintas impressas na propaganda do
saquinho.
Tal plástico provoca um efeito visual, não ecológico. Um truque químico. Os
aditivos que recebe esfarelam os polímeros derivados do petróleo, fazendo-os
desaparecer a olho nu. Mas os resíduos permanecem perigosamente infiltrados
no solo. Pior, ao serem decompostos, liberam o carbono de suas moléculas.
Representam séria ameaça ao meio ambiente. Sabe-se lá por que parlamentares
do PT adotaram o novo plástico. O projeto de lei 534/07, de autoria do
deputado estadual Sebastião Almeida, pretendia tornar obrigatório o uso
desse plástico oxibiodegradável entre os comerciantes paulistas. Estranho
impor algo tão discutível.
O governador José Serra, recomendado pela Secretaria do Meio Ambiente, vetou
a lei. Em respeito à opinião pública, publiquei artigo neste espaço da
Folha, intitulado “Engodo plastificado” (27/7), explicando as razões da
decisão do governo. Argumentei que essa novidade plástica representava uma
ameaça, não uma ajuda, ao meio ambiente. Os pareceres técnicos se encontram
em www.ambiente.sp.gov.br.
O deputado retrucou. Era esperado. Todavia, pouco defendeu o produto que
apadrinhou. Preferiu me atacar -e atacar o governo-, politizando a
discussão. Apontou a Secretaria do Meio Ambiente como ligada às empresas
petroquímicas. Inverossímil. Acusou-me, inclusive, de defensor dos
agricultores. Nada a ver.
Ora, o lobby que ganhou essa parada foi o dos interesses difusos, a base
jurídica do ambientalismo. Venceu a turma da educação ambiental. Uma derrota
dos marqueteiros que prometem mágicas à custa da natureza. A vitória de quem
pensa no futuro, sem falsas soluções. Nem raciocinam com o bolso das
campanhas eleitorais.

*FRANCISCO GRAZIANO NETO*, o Xico Graziano, é engenheiro agrônomo e
secretário estadual do Meio ambiente de São Paulo. Foi presidente do Incra
(1995) e chefe do gabinete pessoal da Presidência da República (gestão FHC).